quinta-feira, setembro 15

Um Doce de Sabor Singular

 
    Voltei a agir da mesma maneira como quando criança. Ganho balas, biscoitos e outras guloseimas. Guardo-os em uma caixa, em meu quarto, e, quando procuro por eles, já não são mais válidos, estão podres. Minha boa intenção em conservá-los, ao contrário de mantê-los disponíveis por mais tempo, acaba por destruí-los. Minhas mãos, que antes os levavam  com carinho até a caixa, agora precisam guardá-los com tristeza no lixo.
     Minha vizinha teve atitude semelhante durante alguns anos. A diferença é que seu esquecimento não foi referente a doces, ou melhor, se referia apenas a um único doce, um doce de pessoa.
     Para aliviar a infância de minha vizinha, que tinha um pai carrasco, vivia próximo dela o seu padrinho, que a fazia sorrir sempre que preciso - e quando não era preciso também. É o modelo de companheiro que Deus nos manda para que seja possível viver com mais entusiasmo. "Entusiasmo", foi essa a palavra-herança que minha colega de bairro recebeu do padrinho.
     Depois de casada e com filhos, ela não encontrou tempo para visitar aquele que por anos a manteve feliz ao lhe ensinar ardor que se deve ter pelas experiências que se presenciam. Para falar a verdade, houve um dia em específico que ela separou para revê-lo. Se estava previsto pelo destino ou não, até hoje ela não sabe. O fato é que, depois de andar por horas na estrada até chegar à casa do padrinho para entregar-lhe um abraço e um bolo preparado com carinho, ela descobriu que há algum tempo ele já não morava mais naquele local.
     Se com tristeza um dia carreguei meus doces ao lixo, com amargura chorou minha vizinha por não ter levado o seu padrinho, o seu doce preferido, ao lugar onde está escrito "jaz aqui um homem que deixou belas memórias por onde passou e permanece vivo no coração daqueles que tiveram a satisfação de conhecê-lo."

1 comentários:

reflexoeshomeopaticas disse...

Aah, que triste...

Sobre guardar os doces na caixa ou não, já tendo consciência que eles não são eternos; ou melhor, sobre a decisão de consumi-los ou não enquanto eles estão fazendo o papel de te lembrar da alegria de receber presentes; escrevi em um diálogo recente algo que pode caber aqui e quero dividir:

Não se preocupa, tudo que acontece só acontece por sincronia, sempre. Se aplica a tua relação com todas as pessoas. Há a história, há as circunstâncias, mas sempre o mais importante é o que é sincero naquele momento. E sempre que tu for sincera, as pessoas ao redor também vão ser, se elas sentirem tua sinceridade ^^ Passa a acreditar nisso o/ (mesmo sendo difícil =B)


Sobre a vizinha (caso ela exista), o que sobra das pessoas que não estão mais ali é o que a gente guarda delas. O padrinho dela certamente a estimulou a ser quem ela é, parte da vida feliz que ela certamente teve se deve a ele. A gratidão que existe não precisa ser expressada, apenas sentida. O padrinho dela certamente sabia disso.


E o epitáfio deveria ser um manual de instruções para todas as pessoas...




P.S.: parece ter havido evolução na qualidade do texto. O que semestres de estímulo nesse sentido faz é incrível, né?

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Um conjunto de antíteses e uma mente apaixonada, que pulsam juntos em forma de sonhos. Graduanda em Psicologia e ex-estudante de Jornalismo na UFRGS.

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