segunda-feira, novembro 15

Waking Life

   Sempre estamos à procura de melhores formas para nos expressarmos da maneira mais inteligível possível. Os homens do paleolítico iniciaram suas tentativas por meio representações pictóricas. Havia o desejo de transformar os sons e suas formas abstratas de comunicação em maneiras mais didáticas ao se criar sistemas de símbolos. Eles passaram a marcar as cavernas e, com o advento do Estado no período neolítico, a forma de escrita evoluiu de imagens para as primeiras evidências da formação de um alfabeto. Independente das técnicas, seja pelo uso de argila, de carvão, de fibras vegetais; seja sobre paredes ou pergaminhos, nunca nos contentamos em usar apenas um meio para levar adiante os nossos pensamentos. E em razão dessa necessidade, os meios de comunicação se expandiram e permanecem em evolução a todo o instante. Somos capazes de nos comunicar por meio da voz, de gestos, de imagens, de escrituras.
   Nesse processo de passagem do pensamento de uma pessoa para a outra, nascem conflitos. Há o receio de que a interpretação sobre o que se analisa não seja a ideia primitiva do autor. Mais do que erro de interpretação, teme-se que o problema nessa passagem não seja apenas o erro de entendimento, mas se a informação consegue ser assimilada em sua totalidade.
   Esta dúvida é uma das questões abordadas no filme Waking Life, do diretor Richard Linklater. O filme exibe inúmeras cenas em que são usados argumentos de diversas ciências sociais para tratar a questão do existencialismo. Em uma dessas discussões, uma mulher exibe o seguinte discurso:
"Quando eu digo "amor", o som sai da minha boca e atinge o ouvido de outra pessoa, viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro através das memórias de amor ou de falta de amor. O outro diz que compreende, mas como sei disso? As palavras são inertes. São apenas símbolos, estão mortas. Sabe? E tanto da nossa experiência é intangível. Tanto do que percebemos é inexprimível. É indizível. E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos ter feito uma ligação, e termos sido compreendidos, acho que temos uma sensação quase como uma comunhão espiritual. Essa sensação pode ser transitória, mas é para isso que vivemos. "


   Outra questão abordada no filme é uma crítica a roteiros de cinema, de novela. Dois jovens conversam e dizem que os roteiros costumam limitar as histórias e os atores. Eles dizem que boas histórias apenas existem quando há o espontâneo, quando os atores podem ter liberdade no momento de gravação, expressando aquilo que eles realmente sentem em cada cena. Em razão disso, percebe-se que Waking Life é um filme diferenciado. Ele transforma a gravação original em um modelo de animação, na qual existem efeitos que, durante as cenas, realçam as falas e as expressões dos personagens para que o espectador tenha a melhor interpretação possível sobre os temas que são debatidos no longa-metragem.
 Importante a ser tratado é a relação entre sonho e vida real. Um dos personagens vive o enredo dentro do sonho de um sonho e procura formas de sair desse sistema para viver naturalmente. Nesse processo de descobrimento, ele fala com um especialista sobre sonhos. O homem diz que nos sonhos as pessoas têm liberdade e, caso percebam que estão sonhando, procuram aproveitar aquele momento porque as reações de um sonho provocam as mesma sensações que temos em nosso cotidiano. Ele diz que não temos essa mesma liberdade na vida porque há um sistema que limita nossas atitudes, mas que deveríamos contestá-lo, fazendo o que é de nosso agrado, vivendo como se a vida real fosse um sonho.


Voltando à questão do existencialismo, uma frase é capaz de abordar a complexidade deste tema de uma maneira que provoca reflexão:
Você ainda não conheceu a si mesmo. Mas a vantagem de conhecer os outros, enquanto isso, é que um deles pode lhe apresentar a si mesmo.
Waking Life é um filme para ser visto inúmeras vezes, pois tratá uma reflexão nova a cada vez em que for assistido. Ele merece uma análise atenciosa para que seja possível sugar as inúmeras mensagens neurocientíficas que são exibidas ao longo da produção.




Um bom filme àqueles que resolverem assistir. Até mais.

6 comentários:

Rogério Fernandes disse...

Grande texto!
Bom... acredito que a mesma experiência de vida que nos mostra e ensina coisas, também podem nos prender. A memória serve tanto para os momentos bons quanto para os ruins.
"Amor" para uns pode soar como "liberdade" e para outros como "dor".
Desta forma, estamos presos as nossas experiências e as conclusões que tiramos do que vivemos...
Isso que eu nem falei ainda da sociedade que nos rodeia né... :(
Beijo Laura!

Mulheres Obssessivas disse...

òtimo. Sem memoria, sem existência. Sem memória, sem experiência.
Beijos

Mari Fagundes disse...

Fiquei com muita vontade de ver esse filme, especialmente pela primeira discussão que você citou. ;*

Gabriel V. N. disse...

Adorei de cara esse filme apenas pelos seus comentários! Ele é feito em animação é?! Deve ser engraçado, por esta parte. Enfim, adorei seus comentários lá no blog, e estou retribuindo. Aaah, estou seguindo o seu também! Retribui?!
A nossa identificação é tão grande!
Meu sonho de vida é fazer Odonto! Mas seja o que Deus quiser. Não quero me deter apenas em uma área. Desejo muito mais. Psicologia, letras, enfim.
Jornalismo é lindo, mas o mercado aqui em PE é muito escasso.
E a área de Saúde sempre haverá.
AAAh, na palestra que vi o Guilherme Fiúza estava lá. Ele e a Maria Paula.
E tantos outros... Ricardo Piglia, Camile Paglia, Eva Sholoss, Cássia Kiss...
Amei!

Fabio Ramos disse...

Laura, mais uma vez no seu blog pra comentar!
Vou seguir sua indicação do filme, pra ter uma visão mais completa daquilo que escreveu aqui...
Bela explanação sobre o início da comunicação do ser humano. Desde o início, nosso olhar está contaminado e influenciado pelos signos (significados)e praticamente não vivemos sem eles; o fato do filme ser uma animação, praticamente facilita e muito a codificação da mensagem por meio das expressões dos personagens. Animações, desenhos e HQs sempre determinam essa codificação facilitada do nosso inconsciente.
Com relação aos sonhos, que bom que nosso organismo possui formas de liberação do inconsciente, onde podemos realizar coisas incríveis e viver sentimentos inimagináveis; sem os sonhos, nossa realidade seria insuportável. Como o homem sobreviviria sem sonhar?! E o que seria de nossa realidade, se não tivéssemos limites em nossas ações?! Mas por outro lado, temos uma liberdade que desconhecemos (um livre arbítrio) do qual não damos o devido valor...
Realmente, conhecermos a nós mesmos, é o caminho para essa liberdade.
Abraços!!!

http://comunicationislife.blogspot.com/

anderson massolino disse...

como tudo que eu disser poderá ser mal interpretado,então vou ser muito breve e suscinto para todos entenderem.

Esse blog é demais,muito bom mesmo,adoro vim aqui ler.

grande abraço

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Minha foto
Um conjunto de antíteses e uma mente apaixonada, que pulsam juntos em forma de sonhos. Graduanda em Psicologia e ex-estudante de Jornalismo na UFRGS.

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